Killers

Macio, aconchegante, envolvente. Após conferir a hora pela quinta vez não tenho forças para levantar. Praticamente sem saída, resignada a minha sina – matar. Dessa vez seria rápido, quase indolor. Apenas uma decisão. Outras vezes decepo aos pouquinhos, o começo, o fim, intervalos prolongados. Serial Killer de aulas da faculdade. Tenho eu que lutar contra esse instinto até a redenção.

Era fácil enquanto novidade. Parecia ter fim. Com o passar do tempo, maturidade e crítica dificultam meu auto-sacrifico e então passo a sacrificar. Me poupo de algumas horas de perda de tempo e outras que só eu sei o quanto vão me custar. Mas serial killer sempre torna a matar, custe o que custar.

Sem Volta

A faca que me cortava era afiada, e a dor veio de imediato. O sangue jorrava do meu estômago ensanguentando o chão em que eu estava deitada. Em pouco tempo eu viraria um pouco mais que nada. Apenas mais um corpo infestado de carbono, estaria sem vida em um chão qualquer. Estava ficando sem forças para gritar, afinal canalizei toda a energia me arrastando para o telefone. Quando liguei para a emergência só tive fôlego pra pedir socorro. Eu não fazia ideia de onde estava, e iria morrer de hemorragia antes que alguém pudesse intervir. Minha respiração fora diminuindo e a dor desaparecendo. Fechei meus olhos na esperança de que aquela agonia não durasse muito mais. Sempre achei horrível, em filmes, quando os policiais encontram os corpos de olhos abertos e sem brilho. Morta. Foi assim que me encontraram. Completamente sem vida. Não reclamo, pedi por isso no momento em que me deixei levar pelas cantadas baratas de um homem bonito com sotaque estranho.Naquela noite saí do meu apartamento sem dizer à minha colega de quarto aonde iria e que horas iria retornar. Fui burra, quase uma suicida. Minha vida era boa, havia dinheiro em minha conta bancária, amigos legais, família bem estruturada. Mas não era o suficiente. Eu necessitava de emoção mais forte, mas fui longe demais e acabei no fim mais cedo do que o planejado. Eu escolhi esse caminho, afinal. Apenas paguei por minhas escolhas.

Oposição Contínua


Esses dias a lei de Lenz me disse uma coisa que me fez parar pra pensar. Foi quando li ela pelo o que deve ter sido a centésima vez, tentando entender e fixar o maldito magnetismo na minha cabeça, que vi muito mais do que um condutor e campos magnéticos. Não lembro exatamente onde, talvez tenha até sido em mais uma das minhas consultas ao Eletricidade Básica, talvez tenha sido Milton Gussow que tenha escrito no livro que, de um tempo para cá, virou minha bíblia o que me fez parar pra refletir. Não lembro exatamente as palavras, mas era algo muito próximo de ' Tendo em vista que tudo precisa ter uma oposição, como descrito na lei da de Lenz. '

E ai minha cabeça se encheu de ideias. É claro que Lenz se referia ao campo magnético gerado no condutor, mas pensei que quem não entende nada de magnetismo e lesse só essa frase pudesse também relacionar com outras coisas que, assim como esse campo, surgem como uma forma de protesto, quase por pura birra, só pra contrariar. E a forma como foi colocada a frase, afirmando com tanta certeza que tudo precisa ter uma oposição, me fez levar a palavra 'tudo' ao pé da letra.

E se pra cada ideia que nós temos, por conta dessa lei ou da força que faz com que ela exista, seja essa força qual for, surja uma ideia contraria? Cada certeza, um questionamento? Cada ação, - e ai Newton também entra na dança - uma reação? Seguindo a regra, também existiria alguém com a missão de somente se opor a nós? Não falo em brigas, falo em debates, ideias. Porque, para se opor as minhas ideias alguém teria de entendê-las primeiro, e para isso teria que ter um raciocínio próximo do meu, o que o tornaria, apesar de oposto, parecido comigo. E pra exercer sua função teria que ser próximo de mim, portanto, sem brigas. Apenas oposição, implicância.

Pura piração, mas talvez eu esteja me aproximando de algo mais concreto pra acreditar do que um Deus todo poderoso e cheio de contradições.


Águas de outono

Já era outono e anoitecia cedo, quando ela finalmente conseguiu se despedir, ao fechar o portão viu o vento arrancando as folhas das árvores tornando a rua aconchegante e arborizada agora melancólica. Entrou em casa e viu sua mãe preparando o jantar com aquele cheirinho de comida tomando conta do ambiente, reconheceu a vinheta da novela mas algo estava errado, nem mesmo o delicioso aroma do café passado podia lhe despertar o apetite. Ela tinha que se decidir.

Havia meses tentava terminar o longo namoro de forma civilizada, mas sempre encontrava uma razão para adiar o término, era como estar presa a um elástico. Certa vez encheu-se de coragem medira todas as palavras que iria usar, não queria machucá-lo, James era um pouco confuso e depressivo horas até um pouco agressivo e parecia precisar muito dela. Não sabia que proporções teriam o término do namoro.

Sentada no sofá ouvia o som da TV ao longe, imersa em pensamentos cada vez mais confusos não tinha mais dúvidas, não gostava mais dele. Este James possessivo não era o mesmo por quem se apaixonara. Sentia falta do companheiro que ele era, seus carinhos e os bons momentos que tiveram juntos agora estavam todos na memória, sabia que com ele não seria mais feliz.

O tilintar dos talheres a mesa trouxe-a de volta e foi então que ouviu sua mãe chamando para ceiar com a família. Colocou sua melhor máscara, ligou os sorrisos do piloto automático juntando-se aos outros na mesa de jantar. Seu pai falava sobre a crise que o país passava, mal sabia ele que havia uma crise muito pior em seu interior. Do lugar onde estava podia ver a televisão que agora mostrava o casal mais romântico e a trilha sonora fez seus olhos se encherem de lágrimas, já sentia as dores do fim. Resolveu abortar a janta retirando-se rapidamente da sala, nada melhor do que um banho quente para acalmar seus sentimentos, pensou ela. Tinha esperanças que a água pudesse dissolver toda aquela angústia.

Limpou o vapor do espelho e pode ver seu rosto resignado aquela situação que tanto a incomodava. Era uma covarde! Estava prestes a deixar mais uma vez a conversa para o dia seguinte, a luz do sol onde se sentia mais segura. Os sentimentos de culpa e impotência que vieram mais tarde fizeram com que ela, em um ímpeto de coragem pegasse o telefone discando seu número automaticamente. Já eram mais de 23:30h e a casa estava em profundo silêncio, todos dormiam se escondendo do frio que maltratava a face dos que ousavam desafiá-lo.

Sentia seu coração pular no peito cada vez mais próximo da garganta, lutava para manter sua mão firme que agora tremia com violência segurando o fone. Dúvidas minaram seus sentimentos. Por que ele não atendia? Será que resolvera ignorar o telefone ao ver seu número no identificador? Agora a coragem transformara-se em raiva e ela estava mais confusa do que nunca. Já afastava o fone do ouvido quando ouviu um sussurro – Susan? Era a voz dele, mas porque a chamada de Susan, até mesmo nos momentos de tensão entre os dois a tratava por Susy. Definitivamente algo estava errado. As palavras soltaram de sua língua como fogo – Preciso falar com você urgente. Surpreendentemente James não questionou e apesar da voz pesada de quem dormia respondeu prontamente que chegaria em dez minutos. – Não, aqui em casa não, em frente ao café.

Vestiu uma roupa quente e sem graça. Era como se fosse uma armadura. Pé ante pé saiu do quarto e com todo cuidado destrancou a porta dos fundos saindo silenciosamente, não queria alarmar seus pais. Pensou no que estava prestes a fazer e não entendia a urgência de sua decisão, mesmo assim a seguia como a um pressentimento.

No caminho sentia tremores por todo o corpo, o frio era severo e seus músculos tremiam de excitação. Tentou se acalmar, afinal James contestaria, ela devia ser forte e com o tempo tudo iria se ajeitar. Buscava conforto na sensação de liberdade que já podia sentir o gosto.

O café ficava apenas há uma quadra de sua casa e aquela hora já estava fechado. Lá costumavam tomar chocolate quente e conversavam durante horas. Outrora também fora cenário de pequenos desentendimentos. Nada sério.

James estava encostado na fachada amarela de vitrines apetitosas. Vestia o pulôver que ela tanto gostava. Seu perfume a fez lembrar dos abraços quentes e macios no inverno frio. Serão boas lembranças, pensou Susan. Já sem paciência foi direto ao ponto deferindo o golpe fatal no início da luta. – Não te amo mais James. Foi o suficiente. Para a sua surpresa não houve luta. Sem questionamentos, sem resistências. Só uma compreensão inesperada e o rosto abatido de quem abdicara de algo realmente precioso. Aquela imagem jamais seria esquecida. A cena que se seguiu partiu seu coração, James a abraçou em despedida seguindo em silêncio a rua vazia e escura em direção a sua casa. Susan sentiu um vazio. Logo o vazio fora preenchido por um turbilhão que revirava seu estômago com fúria. Agora voltavam as dores do fim.

Os dias que se passaram eram cinzas e de uma profunda tristeza. Um luto involuntário de um amor falsamente sepultado. O sol só voltou a brilhar quando ouvira aquela voz tão conhecida ao telefone – Susy? Seu coração se aqueceu.

O pouco tempo que passaram separados e o sumiço inesperado de James fizeram que Susan desejasse com toda a força uma reconciliação esquecendo seus pressentimentos de alerta. Sentia muita falta dele. Voltaram a se falar, sempre ao telefone e as conversas eram cada vez mais longas e engraçadas. Ele estava de volta! E agora o desejava mais do que tudo.

Alguns dias se passaram até que James a convidou para um passeio. Seu sorriso voltou a brilhar. Só o lugar escolhido lhe causava curiosidade, James tinha a convidado para uma tarde na orla do rio que abastecia a estação de tratamento de água da cidade. Era um lugar realmente lindo, as árvores já sem folhas adornavam as margens das águas tingidas de um verde escuro. A paisagem natural só era interrompida pelos captadores de água que insistiam em anunciar sua presença com o forte ruído das imponentes bombas de sucção. Depois de alguns momentos observando a paisagem, começara sentir um desconforto causado por seu medo de água. Lembrou-se da vez que James insistiu que a ensinaria a nadar! Riu das lembranças, logo ele chegaria e ela finalmente se sentiria segura.

James apareceu sorrindo e no caminho apanhou uma flor que brotava em meio à grama. Abraçaram-se e seguiram com as mãos entrelaçadas até a plataforma onde era possível observar a captação da água mais de perto. Uma visão linda e ao mesmo tempo assustadora. Susan sentia a mão fria e suada de James na sua que nada combinava com o abraço caloroso. Ele devia estar nervoso.

A plataforma estava próxima e durante sua caminhada James falava o quanto gostava dela, a falta que ela fizera todo esse tempo. Susan se desculpava pela atitude que agora julgava precipitada e prometia que nunca mais se separaria dele. Ao chegarem na plataforma Susan sentiu um desconforto com a proximidade de toda aquela água que escoava com velocidade. Pediu que fossem para outro lugar, havia um banco aconchegante logo adiante onde poderiam ficar bem abraçados. James concordou mas sugeriu que antes fossem um pouco mais próximos da grade de proteção para tirarem uma foto, a foto que marcaria o momento a partir do qual jamais se separariam. Susan concordou tentando dominar a estranha sensação de borboletas em seu estômago. Notou que as grades de proteção já não eram tão seguras e justamente onde eles estavam havia uma falha onde cordas com aspecto de podre faziam as vezes de proteção. Após tirarem a foto juntos James pediu para que ela permanecesse, queria uma foto só dela. Susan em um esforço enorme virou-se de costas para as cordas podres e foi surpreendida com um solavanco. Sentiu seus pés escorregarem no chão coberto por uma grossa camada de limo e suas costas arrebentaram sem esforço as cordas enegrecidas pela umidade que haviam lhe alertado para o perigo. Seus gritos de socorro foram abafados pela enorme quantidade de água que rapidamente cobriu sua face. Sentia seu corpo afundando no redemoinho e o barulho agora ensurdecedor das enormes bombas foi sua última lembrança.

James beijava a mão que tocara sua amada pela última vez. O violento empurrão que tantas vezes tinha imaginado eternizara sua Susan. Ela sempre seria sua.